terça-feira, 20 de março de 2018

Ser PROFESSOR


Neste momento o relógio marca 02:50h da manhã.
Acabei de finalizar a escrita de um Programa de Extensão que irei submeter daqui a pouco... antes de dormir lembrei de uma história que aconteceu e resolvi compartilhar aqui...


Faz poucos dias que fui acompanhar uma prática da disciplina de Educação Nutricional em uma escola de Cuité. Coloquei meu macacão jeans, minha sapatilha e segui para por em prática uma das coisas que mais gosto na vida: SER PROFESSORA.
Pois bem, ao finalizar as atividades fiquei um tempo olhando o whatsApp na frente da escola e eis que um diálogo inesquecível ocorreu com uma adolescente que não sei quem é e muito menos sei o nome.
          Adolescente: Ei, você é o quê?
          Eu: Sou professora.
          Adolescente: Você é professora dessa escola aí?
          Eu: Não, sou não. Sou professora da Universidade.
          Adolescente (perplexa): Você é professora da Universidade??????????????
          Eu: Sou... pq?
          Adolescente: Pq você não tem cara de professora da universidade.
          Eu: Ai meu Deus... e eu tenho cara de quê? (já tive medo da resposta que ouviria)
          Adolescente: Oxe, você tem cara "das minhas amigas"!
          Eu: :)     :)     :)     :)     :)


Desde este dia que estou refletindo ainda mais sobre ter "cara" de professor, "jeito" de professor, se vestir como professor, falar como professor...
O que se espera de um professor universitário afinal? O que é mesmo ser professor?

Eu comecei a dar aulas de alfabetização quando tinha 9 anos e ao longo da minha vida a docência sempre esteve presente mesmo quando eu não tinha consciência disso.
Alfabetizei "amiguinhos" da rua, dei aulas de reforço na adolescência para ter dinheiro para comer melhor, ministrava aulas para minhas estagiárias no PSF em Cabedelo, dei aula em faculdades particulares e cá estou eu... professora da Universidade Federal de Campina Grande... ADORO!

Mas todos os dias eu tento ser uma educadora... tento refletir como será a melhor aula para aquela turma? Que métodos se adequam melhor para este conteúdo? O que perguntar em uma prova escrita? O que eu quero avaliar do meu aluno?

Sempre quis ser uma professora diferente de alguns professores que tive... eu pensava: se um dia eu for professora da universidade, nunca vou fazer isso com meus alunos - desconsiderar que eles são seres humanos, impor o meu ritmo de pensamento, elaborar uma prova com 4 questões onde duas são "cascas de bananas" (nunca entendi o objetivo disso), se orgulhar do número massivo de reprovações, deixar o  aluno pensar que por ser estudante ele precisa ficar sem comer, sem dormir, sem namorar, sem viver... pq estudar é isso... Nossa!!!! Como eu queria ser professora só para ser diferente disso!

Ouvi recentemente que eu SÓ tinha duas disciplinas de sala de aula (acreditem, algumas pessoas acham que é apenas nas 4 paredes da sala de aula que se formam futuros profissionais) e que por isso eu podia "pegar" mais alguma disciplina, quem sabe um campo de prática em saúde coletiva...
Decidi responder que não "pegaria" mais uma disciplina pq não queria... resposta simples para evitar conflito... por dentro eu lembrava que coordeno e supervisiono Estágios sozinhas a mais de 1 ano, sou tutora de um PET que pela lei me confere 10 créditos, coordeno 4 projetos de extensão, tenho 2 monitorias, 5 orientandos, 2 projetos de pesquisa, estou Conselheira do CONSEA Estadual, Conselheira suplente do Conselho de Cultura de Cuité... tá bom... realmente APENAS essas duas disciplinas devem ser muito pouco quando se compreende o trabalho docente como um "fazedor de aulas". Uma pena...

Encerro minha noite hoje lembrando esse texto de Rubem Alves (que compartilho logo abaixo) e pensando o quanto precisamos refletir, discutir e dialogar sobre SER PROFESSOR!


"Formação do Educador - Rubem Alves
Sonho com uma escola em que se cultivem pelo menos três coisas.
Primeiro, a sabedoria de viver juntos: o olhar manso, a paciência de ouvir, o prazer em cooperar. A sabedoria de viver juntos é a base de tudo o mais.
Segundo, a arte de pensar, porque é a partir dela que se constroem todos os saberes. Pensar é saber o que fazer com as informações. Informação sem pensamento é coisa morta. A arte de pensar tem a ver com um permanente espantar-se diante do assombro do mundo, fazer perguntas diante do desconhecido, não ter medo de errar, porque os saberes se encontram sempre depois de muitos erros.
Terceiro, o prazer de ler. Jamais o hábito da leitura, porque o hábito pertence ao mundo dos deveres, dos automatismos: cortar as unhas, escovar os dentes, rezar de noite. Não hábito, mas leitura amorosa. Na leitura amorosa entramos em mundos desconhecidos e isso nos faz mais ricos interiormente. Quem aprendeu a amar os livros tem a chave do conhecimento.
Mas essa escola não se constrói por meio de leis e parafernália tecnológica. De que vale uma cozinha dotada das panelas mais modernas se o cozinheiro não sabe cozinhar? É o cozinheiro que faz a comida boa mesmo em panela velha. O cozinheiro está para a comida boa da mesma forma como o educador está para o prazer de pensar e aprender. Sem o educador o sonho da escola não se realiza.
A questão crucial da educação, portanto, é a formação do educador. “Como educar os educadores?”
Imagine que você quer ensinar a voar. Na imaginação tudo é possível. Os mestres do vôo são os pássaros. Aí você aprisiona um pássaro numa gaiola e pede que ele o ensine a voar. Pássaros engaiolados não podem ensinar o vôo. Por mais que eles expliquem a teoria do vôo, só ensinarão gaiolas.
Marshal McLuhan disse que a mensagem, aquilo que se comunica efetivamente, não é o seu conteúdo consciente, mas o pacote em que a mensagem é transmitida.  “O meio é a mensagem.” Se o meio para se aprender o vôo dos pássaros é a gaiola, o que se aprende não é o vôo, é a gaiola. 
Aplicando-se essa metáfora à educação podemos dizer que a mensagem que educa não são os conteúdos curriculares, a teoria que se ensina nas aulas, educação libertária etc. A mensagem verdadeira, aquilo que se aprende, é o “embrulho” em que esses conteúdos curriculares são supostamente ensinados.
Tenho a suspeita, entretanto, que se pretende formar educadores em gaiolas idênticas àquelas que desejamos destruir.
Os alunos se assentam em carteiras. Professores dão aulas. Os alunos anotam. Tudo de acordo com a “grade curricular”. “Grade” = “gaiola”. Essa expressão revela a qualidade do “espaço” educacional em que vivem os aprendizes de educador.
O tempo do pensamento também está submetido às grades do relógio. Toca a campainha. É hora de pensar “psicologia”. Toca a campainha. É hora de parar de pensar “psicologia”. É hora de pensar “método”… 
Os futuros educadores fazem provas e escrevem papers pelos quais receberão notas que lhes permitirão tirar o diploma que atesta que eles aprenderam os saberes que fazem um educador.


Desejamos quebrar as gaiolas para que os aprendizes aprendam a arte do vôo. Mas, para que isso aconteça, é preciso que as escolas que preparam educadores sejam a própria experiência do vôo."





2 comentários:

  1. Nao é só esse estudante que se impressiona com sua jovialidade. Você extrapola o exemplo, isso é resistência! Manter o brilho no olhar para uma profissão em que em tempos nossos de descaso poucos acreditam e muitos impiedosamente criticam. É o ditado, se cansar pare para descansar, nao para desistir. Sucesso, flor!

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